O QUE NÃO CABE NA LINGUAGEM, ESSA ESFINGE ENTRE O INAUDÍVEL E O IRREPRESENTÁVEL
Resumo
O romance contemporâneo, fruto de categorias narrativas colocadas em xeque no fim do século XIX e produto das inquietações formais do século XX, ressignificou as noções de sujeito e representação literária, com questões como o descentramento do Eu e a ruptura do paradigma de identidade. Estas discussões, que permeavam a literatura, já se vislumbravam também na psicanálise, na virada do século XX, quando passou –se a conceber um sujeito dividido, incapaz de conseguir ao mesmo tempo saber o que diz e dizer. “Conforme teoriza Lacan em sua interpretação da desconstrução freudiana do cogito cartesiano, ´penso onde não sou e sou onde não penso´” (HOMEM, 1969, p. 50), ou seja, o sujeito “nunca está onde se procura” pois está radicalmente separado do outro do sujeito, o inconsciente, o que aproxima o fazer literário do processo analítico. Segundo Bellemin-Nöel, o que a psicanálise compreende como fantasia dialoga intimamente com a estrutura da ficção literária. Neste sentido, a impossibilidade de a linguagem abarcar a experiência vivida leva à busca daquilo que, em princípio, poderia significar o oposto da linguagem, o silêncio. E é no encalço deste silêncio que “fala” que caminha este artigo, na tessitura da obra Tudo é rio, de Carla Madeira.